segunda-feira, 25 de setembro de 2017



ERA PAULO INFLUENCIADO PELO 
GNOSTICISMO GREGO?

Acreditar que o apóstolo Paulo seja influenciado pelo pensamento helênico, do ponto de vista ideológico, e pelo pensamento judaico-farisaico, do ponto de vista religioso, parece-me estar alicerçado numa pré-concepção de índole liberal que privilegia – sob determinado aspecto – o Determinismo Naturalista. Ou seja, Paulo não poderia deixar de ser influenciado pelo Zeitgeist em que estava inserido.

 O credo liberal prossegue: na medida em que todos os setores da existência humana trazem como um traço distintivo as influências determinantes do contexto social, conscientes ou inconscientes, sobre a singularidade existencial  de um indivíduo, por que não aceitarmos como sendo razoável a opinião de que Paulo apresente em seus ensinamentos algo no âmbito gnosio-lógico que seja o resíduo do gnosticismo grego?  Se acreditarmos que os dados do Sitz im Leben – fornecidos pela Historiografia – em que Paulo produziu seus ensinamentos correspondem à Realidade, a resposta parece simples. Se, porém, questionarmos os critérios adotados pela Metodologia Crítico-Historiográfica, a resposta merece, no mínimo, uma suspensão céptica, porquanto é extremamente questionável a suposta neutralidade da objetividade científica em qualquer domínio do saber.

 Parece-me ser mais razoável reconhecer que a ΓΝΩΣΙΣ grega, através de suas duas vertentes: a mística e a racional, não encontra em Paulo um espaço de atuação, porquanto está associada a uma concepção de que a ΣΩΤΗΡΙΑ dependa da ΓΝΩΣΙΣ do mundo divino, que só poderia ser propiciada através da iniciação. Na doutrina de Paulo, Cristo é a ΓΝΩΣΙΣ ΤΟΥ ΘΕΟΥ dissociada da ΓΝΩΣΙΣ ΤΟΥ ΚΟΣΜΟΥ. Dissociação esta que, opondo-se à crença de que a iniciação aos mistérios gnósticos seja um meio de salvação, atribui a Cristo – e não à ΓΝΩΣΙΣ – o poder soteriológico. A ΣΩΤΗΡΙΑ a que Paulo se refere encontra somente em Cristo a sua razão de Ser. A ΓΝΩΣΙΣ dos gnósticos não pode  conferir, segundo Paulo, a graça redentora, pois pré-supõe a necessidade de ritos de penitência como instrumento de disciplina do espírito, ancorando-se fragilmente em uma ΠΙΣΤΙΣ estranha à ΠΙΣΤΙΣ ΤΩΙ ΧΡΙΣΤΩΙ.

 Acreditar que Paulo seja influenciado pelo gnosticismo grego parece ser a conseqüência lógica da crença liberal, que atribui, de certo modo, à Metodologia Crítico-Historiográfica um estatuto de validade  inquestionável, o qual propicia, segundo as inclinações idiossincrásicas do sujeito cognoscente, conclusões, crenças, teses, hipóteses ou opiniões que, na melhor das hipóteses, talvez se aproximem da Realidade. Conclusões, crenças, teses, hipóteses ou opiniões devem – historiográfica e criticamente também – corresponder às suas próprias definições. Caso contrário, corre[re]mos o risco de ter a Metodologia Crítico-Historiográfica como um objeto de fé. Nesse sentido, seu cânone de instrumento dogmático para a tentativa de controle das Sagradas Escrituras será, pelo menos, indiferente, para não dizer adverso, à ideia de que Paulo rejeita a doutrina gnosticista.

Z H P L K S II.



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